segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O eco da cidade num latido
denunciando todas as horas vãs

a lua cresce vertiginosamente
sobre o asfalto azul

e ainda assim há insones
há poetas
e a palavra que não tem hora

e os homens que engolem homens
e mulheres, mulheres

e há ainda os que catam o lixo
ainda que a lua esteja cheia

Grita
Grita o eco mudo da cidade doente

em grunhidos.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Canto



Si un día yo muero

si quisiese y pudiese morir en este mundo

que fuese ahogada en tus pechos mar

en tus pechos madre desde niña

en tus pechos fe

con dos nombres, dos.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Orvalho dos olhos


Vi meu pai em pedaços
e minha mãe se fazendo homem, tentando lhe juntar

Vi minha vó gargalhar entre escaras
e chorar pelo o umbigo

Vi minha irmã virar rio
A outra irmã virar rocha

Minha tia enlouquecer
entre outras tias mortas

entre uma avó índia morta
entre um avô branco morto
entre um avô preto índio morto

Eu vi um horizonte de árvores e magia
uma terra de nome esperança
batizada em cocar, velas, profecias

Vi essa mesma terra saqueada
habitada por estranhos
com as paredes pichadas, escrito:

vazio, vazio, vazio

Eu vi meu corpo ser luz, chama cigana
Vi meu corpo dançar nas costas de um homem menino grande

Vi este homem quebrado, minúsculo

Me vi, no reflexo da janela cheia de chuva

Meus olhos cansados de ver.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

casinha


A minha vingança é de silêncio
Marchetada em Oratório Adornado de Pequeniníssimos Sonhos não Vividos

Fotografia de Vanuccio Pimentel
que tem por dentro de si

Chama de Lume que não se apaga jamais

E ao invés de arder

Chora

Desenha na mágoa mil santos.

Perdão não!
Que meu coração não é terra de ninguém.

Minha vingança é de silêncio, amor e palavras...

eu nunca te darei.


terça-feira, 23 de julho de 2013

Cantam dois passarinhos, tu não.

Do ar que te falta
Maria
da pele papel

Se eu pudesse seria, Maria
Se pudesse sereia

Se o Mar viesse te banhar
eu ia
iria
Onde quer que fosse
Minha Maria, para te fazer voltar

Essa carne fantasma não é tua
Você é uma gaivota
Passarinho Maria

Vóltar
Volta
Vó Mar

que não posso segurar
que não posso proteger
que não posso reviver
que mal posso tocar

Vólta

sexta-feira, 12 de julho de 2013

_____

no espaço dessa casa
vão se desenhando pedaços de mim
os que soltaram do meu corpo

vivem dançando em minha frente
uns gritam
outros pulam

às vezes parecem memórias
ou sons materializados

coisas existem aqui
eu não.

do lado de dentro de mim
tem uma casa
não sei se ela ainda abriga
se há brigas
vozes

de fora do espaço casa
todo mundo existe
você existe feliz, longe de mim
sempre feliz
eu que não queria falar de você

longe de mim, comendo o mundo em gargalhadas
fumando as angústias de tudo
despindo pessoas.

da casa matéria, da casa dentro de mim
só existem duas coisas

vazio








 














Fotografia - Wim Wenders

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Maria

Vólta

Mar ia

Fica

Fica  ria



V
ó
l
t
a

Vovó Maria




segunda-feira, 20 de maio de 2013

Das vigarezas



Vem, Dragoa Mater de palavras veludosas
Vem cantar teu canto de Medusa
Da sabedoria e sabida que és não sabes que em terra
de cerrado ninguém dança greco music?

Nem que neta de Dona Lió não cai no conto da vigária?

Sabes não? No Oriente pode ser bicho sagrado, consagrado,
de papel passado, doutorado, talis coisas e coisas e talis.

Te oriente! Meu mestre falou:
- Malandra é Malandra e Mané é Mané!
E o dono de toda esperteza na hora da proeza
deixou a peta cair no chão...

Aqui não!
Não venha me dizer que é coisa de Satã
Que o Diabo demonhudo que por acaso é muito amigo meu,
me disse que não tem parte contigo.

Guarda teu canto Dragoa, tu não me comove
E se eu não te cuspo, pode ter certeza
É só pra não gastar saliva.


                               

domingo, 5 de maio de 2013

Cavalo doido

Se dessa vontade de sair do mundo
surgisse uma vontade de normalidade
saíria por aí
concordando... concordando... concordando...

O problema, o diabo ou o vermelho de tudo
é que eu não caibo em mim
meu corpo é meio pluma meio pedra
E o coração nunca foi meu

A paz, bicho endemoniado
vive sorrateira
olhando de canto
assoviando e fugindo de mim
se encosta um minuto e vai embora
deixando o redemoinho

Eu não aceito
E se me calo engasgo
Meus olhos não se dão com meia cor
Queria ser um cavalo.

















Cavalo e Guerreira - Tela de Cardozo Vieira

sexta-feira, 26 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

dobarraco

uns dirão que o barraco é um buraco
buraco de céu
vocês não podem ver
mas tem uma lua na minha cabeça

E em uma noite ele esteve aqui
deixou cor
conduziu a dança, apesar de ser torto
por dentro e por fora
bebeu
comeu e se foi

O buraco já era céu
o barraco continua aqui
lindo
flores de sonhos por todos lados
esperança em cada canto de parede
e aqui ainda tem gente que olha a lua
que assume dor de amor
e que come ovo caipira com café.

segunda-feira, 25 de março de 2013

não afronte a criação


Se minha matéria é feita de água revolta de mar:
minha língua passeando sobre toda a imensidão
de mundo que é a pele tua

Pecado nenhum não pode ser 

É criação divina
e minha vó já dizia
Não maldiga a criação!



quarta-feira, 20 de março de 2013

Que não pode ser nomeado


seu nome é tão grande
que não cabe na casa
que não cabe na tela
que não cabe na vida
que não cabe em você

dispa-se desse nome
que te carrega nas costas
e vai ser grande por si.

só.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Azinhaga

 
A deixa lameada dessa história

É que viventes somos

Viveando estamos

E nada não se sabe de fim

sexta-feira, 8 de março de 2013


  - como tá?
 - numa linha reta, sem oscilação, muito bão e vossa excelência?
 - não tenho nem linha mais, oscilando feito vara verde
   no meio do furacão, mas viva
 - o final é feliz.
   VIVA!
 - onde?
 -  na sua sinopse
   não tenho nem linha mais,
   oscilando feito vara verde no meio do furacão,
   mas viva
 - VIVA!



quarta-feira, 6 de março de 2013

Nena, echa de luz


Que pasa?
De donde vinieron esos ojos que ya me concocian?
Que hago? Que se puede hacer?
El amor vino
auque no se sepa como
ni lo que sea
la quiero
Ella
echa de luz




"foi coisa feita, foi mandinga, foi maleita que nunca mais indireita, que nos botaram é capaz...
Sussuarana, meu coração não me engana, vai fazer cinco sumana, tu não volta nunca mais"

arde

covarde
cova
arde
ar
o arde
voar
de ti










Tela de: Bruno Braddell
http://www.facebook.com/BrunoBraddellPaintings